O objeto do desejo é como um fantasma, semelhante aos pontos pretos da figura. Está sempre tão perto que temos a sensação de que um único movimento nos fará agarra-lo. Mas basta que a gente o toque com os olhos para que ele escape e esteja em outro lugar. E assim nunca o alcançamos. É um objeto perdido. Uma ilusão que nos mantém em movimento em busca do inatingível, uma cenoura presa à própria cabeça.
Talvez não seja fácil criar caminhos sobre o nada e inventar um trajeto que o faça atravessar os assombros de si mesmo. A certo ponto é possível que doa desfazer-se de tudo aquilo que era caro apenas para olhar-se de frente e desprovido de disfarces. Por fim será estranho ver abismar-se diante de si um desconhecido, cheio de avessos desejos e belezas incógnitas. Mas é exatamente nesse encontro, nesse desembolar de novelos, que a vida vai se tornando mais leve.
sábado, 28 de janeiro de 2012
O Objeto Perdido
O objeto do desejo é como um fantasma, semelhante aos pontos pretos da figura. Está sempre tão perto que temos a sensação de que um único movimento nos fará agarra-lo. Mas basta que a gente o toque com os olhos para que ele escape e esteja em outro lugar. E assim nunca o alcançamos. É um objeto perdido. Uma ilusão que nos mantém em movimento em busca do inatingível, uma cenoura presa à própria cabeça.
Auto Domínio

Bendizer, nunca é bom julgar-se sob controle. Tudo muda a todo instante, e por isso nada, nunca, pode ser assegurado. Eu mesma, por um tempo, acreditei ter o domínio de tudo o que se passava por mim. Talvez por isso tenha ido tão longe... sem imaginar que não seria tão fácil voltar. Não convém acreditar demais no nosso equilíbrio, há coisas na vida que são fortes demais. Vão além de qualquer controle. A paixão é uma delas.
Agora tento desenhar um atalho para que eu passe logo por esses dias. Que venham outros mais bonitos. A vida anda doendo demais, e eu não gosto que seja assim. Não me interessam piedades. Nunca fui dada ao uso da dor como forma de seduzir afetos. Sou dada a alegria fácil, daquelas que começam na altura da barriga feito festa de borboletas. É isso o que me move. A tristeza me coloca num estado de ‘dor-mência’, me paraliza.
Como diz Clarice Lispector, “É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.” Chego mesmo a pensar que melhor é viver de uma mentira tranqüila que de uma verdade indisciplinada. Por isso aceito entregar-me aos cuidados dos antidepressivos. Que eles possam calar a boca de algumas verdades angustiantes, que teimam em gritar fazendo estragos. A mentira é mais branda, domesticada pelo social. Ela é tudo o que esperam de mim, por isso não causa conflitos. Minha verdade é selvagem demais, não sabe ter modos. Preciso aceitar deixá-la de novo quieta, embora nunca deixe de achá-la bela em sua inconstância, sedutora na sua ousadia.
Há um tempo atrás fiz esse verso, que deveria ter virado uma música, mas não virou por falta de talento. Cabe bem aqui. ‘Melhor ser qualquer coisa que não preocupe os pais e nem doa demais. Qualquer caminho reto, sensato e discreto, aonde se pretenda um pouco de paz’.
sábado, 7 de janeiro de 2012
Fantasia para os dias de festa!

Hoje eu queria uma festa. Gente falando, gente dançando, gente bebendo. Pessoas por todos os lados. Cada um com seu desejo, consciente ou não. Festas são encontros marcados com o que há de mais pulsante dentro da gente. Com aquilo que grita no fundo da alma querendo sair e a gente nem sabe dar nome. Uma esperança de sabe-se lá o quê. Quem vai a uma festa sempre espera. Nem tanto das festas de família, aquelas com convites, presentes e parentes. Festas de hora marcada. Mas muito das festas que a gente inventa. Aquelas noites em que a gente decide se encontrar com o que há de mais verdadeiro em nós. E para isso não tem hora.
É uma vontade de ir. De descobrir, de despertar sensações adormecidas. Uma crença de que o mundo é um lugar bem mais divertido, mais mágico, mais envolvente. Um baú de surpresas prontas a se esparramarem pelo chão, como caixa de brinquedos. O corpo imagina as possibilidades, a mente desenha as façanhas, e cedendo a esse entusiasmo súbito, vestimos a melhor roupa, e saímos. Vamos atrás da nossa festa.
Mas é preciso ter olhos para encontrar do lado de fora, a festa que começamos por dentro. É preciso não se deixar contaminar pela crueza do mundo real. Talvez seja essa a função da bebida nas prévias noturnas: manter uma atmosfera onírica. Fazer com que a realidade e as nossas pinturas internas se confundam e a gente não consiga distinguir onde começa uma e termina a outra. Algo como um sonho. Algo como dar vida e voz ao nosso mundo secreto, e deixá-lo misturar-se despudoradamente a tudo ao redor.
É preciso ter olhos de Cinderela: ver uma carruagem onde há apenas abóboras, cavalos no lugar de ratos, beleza e magia no lugar onde há gente comum e lugares triviais. Porque o encanto das coisas quase nunca parte delas mesmas, mas da forma como a olhamos. Para entender, basta lembrar-se das coisas e pessoas que você amou, e já não ama mais. Porque será que o encanto que havia ali acabou-se? Eles mudaram ou foi você que mudou o seu olhar?
Por isso, nesses dias de festa, o mais importante não é vestir a melhor roupa, mas sim a melhor fantasia. São elas, as fantasias, que transformam coisas comuns em coisas surpreendentes. São elas que nos fazem enxergar um algo a mais em nós e nos outros, é ela que faz com que a gente se apaixone. A fantasia é uma forma muito pessoal de espalhar encantos. É como uma bruxaria capaz de mudar a natureza das coisas.
Então eu sugiro: Nas noites em que você decidir que quer viver uma festa, que quer provar o gostinho do mundo e mergulhar na sua própria fantasia, pegue sua varinha de condão e trate de espalhar feitiços por aí. Acredite: você tornará sua vida mais encantada a partir de seu próprio encanto.
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Amor Criado

Meu amor cresceu. Ainda ontem era um bebê. Fico lembrando dos primeiros dias, a gente ali se conhecendo, meu rosto sorridente e deslumbrado com tanta ternura. Era tão frágil, precisava tanto da minha atenção. Um descuido e podia ser fatal. Tudo era novo, diferente. Era preciso reaprender a andar, agora do lado de alguém. Coordenando os passos, ajustando a velocidade, para evitar tropeços um no outro. Era preciso aprender outra língua, ou melhor, criar outra língua. Os casais costumam ter um vocabulário muito próprio. Por vezes ridículo, é bem verdade, mas delicioso. Tudo é cercado de um arrepio, de uma descoberta, de uma dúvida. Os olhos passam a ser habitados por um brilho de expectativas, premissas, promessas...
E o primeiro corte? Como doeu. Parecia que nunca ia parar de sangrar. Que era o fim. Mas não. Aos poucos a gente se acostuma com o fato de que alguns cortes, alguns arranhões, fazem parte do amor assim como fazem parte da infância. São marcas do ajustamento. Logo passa e às vezes nem deixam cicatrizes. De tombo em tombo o amor vai crescendo. Vai ficando mais forte, mais independente. Exige menos cuidado para continuar existindo, embora sempre requeira atenção. É como filho criado. A gente ama, e muito, mas ele já não nos preocupa tanto como quando era pequeno. É possível deixá-lo atravessar a rua sozinho.
Talvez ele já não me faça rir tanto, como no começo. Mas vira e mexe surpreende por sua maturidade. Num dado momento acho que ele vai embirrar, fazer escândalo, e nada. Ele está sereno. Entende o meu lado. Conhece-me tanto que é capaz de me dar respostas que nem eu supunha. Então me espanto e digo: como é que você cresceu!
Certo saudosismo pela mágica dos começos sempre fica guardado na gente. O começo é sempre um tempo de idealização, de suposição de algo que ainda não conhecemos e acreditamos ser perfeito. Somos de alguma forma, sempre felizes nos começos pela idealização. Mas só depois somos felizes de verdade, quando as máscaras já se desfizeram, quando já vimos o pior do outro, e ainda assim queremos ficar. Quando mostramos o nosso pior e o outro não nos deixou. A realidade do amor é essa: desfigurar a beleza inicial, forjada, e amar a realidade imperfeita do outro.
As paixões podem ser deliciosas. Um redemoinho que sacode a gente e faz vibrar os acordes adormecidos do nosso coração. Mas nada como o aconchego e a maturidade de um amor criado!
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
A dor que dói mais
Essa dor expõe o maior de todos os vazios, a maior de todas as nossas fragilidades. Nossa impotência diante do que é fatal. Diante dos vários fins que a vida vai dando ao que amamos, seja lá o que amamos. Dói quando nossos afetos morrem. Quando as amizades terminam, dói. Quando relacionamentos acabam. Dói a morte das nossas paixões, mesmo aquelas que a gente sabia que não teriam vida longa. Dói o fim dos nossos ciclos, de término tão previsíveis. Dói quando acaba o colegial, depois a faculdade, e os amigos se vão. Dói quando é preciso deixar uma casa, uma cidade, um país. Quando fazemos as malas e mudamos de direção, a vida que a gente tinha acabou de morrer.
A vida vai pontuando o fim de cada uma dessas coisas com seu dedo de foice. Não dá para fugir. Não dá para conter o curso dos acontecimentos. Viver é estar constantemente de cara com a morte. E o impasse nos é dado a cada perda: como enterrar aquilo que não queremos deixar para trás? A dor que dói mais talvez seja essa, na verdade. A dor de deixar morrer. De enterrar dentro da gente aquilo que já nos foi tirado. Jogar a última pá de terra, virar as costas e seguir em frente.
É preciso não se sentir culpado por aceitar a morte. Por ainda estar vivo e ter a possibilidade de ser feliz. É preciso perdoar a vida, e até mesmo perdoar o que partiu, pelo abandono não intencional. É preciso aceitar e entender que o tempo fará seu trabalho de restauração, e que isso não significa uma ingratidão com o que se foi. Não é uma crueldade enterrar os mortos. Cruel é seguir carregando-os vida afora.
domingo, 21 de agosto de 2011
Ainda não é tarde!
Mas olhando para cada uma dessas coisas, sabe que sempre me pareceu meio tarde para começar? Engraçado. Acho que aos 25 achava tarde para começar a estudar teclado. Aos 22 muito tarde para aprender circo. Talvez por isso não tenha começado nenhuma dessas coisas. Lacan eu confesso, era cedo demais. Eu precisava naquele momento era de amigos e boteco mesmo.
Mas o interessante é que hoje ando pensando diferente. Se começar a estudar qualquer coisa que eu realmente goste e me empenhe, aos 35 já vou saber bastante. Aos 40 serei expert, e se a vida for legal comigo e eu viver até os 65 serão 25 anos desfrutando do que eu tiver aprendido. Bem, digamos que você tenha 50. Ainda assim são 15 anos, em hipótese, para viver do que quiser. Talvez seja até mais. Olhar para trás, para o tempo que passou, que perdemos, só nos paralisa. E daqui há 5 anos vamos pensar que esse dia de hoje era o ideal para termos começado alguma coisa que faça nossos olhos brilharem.
O primeiro passo é descobrir “o que você ama que tudo pode ser seu”, como dizia a Marina. Não adianta querer seguir caminhos que você detesta só para ter mais dinheiro, ou mais status. É preciso paixão. Porque sem paixão você pode ficar 20 anos se dedicando à mesma coisa e não chegar a lugar nenhum. O amor ainda é a máxima de qualquer sucesso. Ainda mais se você considerar que sucesso mesmo é ser feliz!
Então simbora começar coisas felizes! Afinal o prazer também não está só no final do caminho. Aprender coisas novas, conhecer, experimentar, são requisitos fundamentais para uma vida ativa e interessante. O que mata qualquer cristão e ficar cristalizado!
sábado, 20 de agosto de 2011
Tampando buracos
Todo mundo tem um buraco na alma. A diferença é o que cada um usa pra tentar tampá-lo. Às vezes um orgulho, um amor ou um cigarro. Qualquer coisa pode servir, mas é a alma que escolhe com seus melindres, as tampas desejadas. Muitas vezes nem entendemos direito a escolha, os critérios passam por caminhos misteriosos demais.
No começo as tampas parecem perfeitas. Somos iludidos por sua eficácia imediata a ponto de acharmos que não podemos mais viver sem ela. Pronto! Estou completo. Passamos a cuidar da tampa com todo nosso afinco, com medo de que ela saia do lugar e nos obrigue a encarar novamente aquele rombo insuportável. Pode até ser que ela nos faça sofrer algumas vezes, que exija muito da gente, tudo bem. Ainda assim nos agarramos a ela como a um tesouro. E ficamos felizes, com a sensação de problema resolvido. Pronto. O buraco está tampado para sempre. Não está. Nunca está. Com o tempo, à medida que nos movimentamos pela vida, percebemos que o buraco ainda está ali, à nossa espreita. A tampa já não cabe tão bem e volta a deixar exposta nossa falta, a nossa ferida. E como incomoda. É quase insuportável encará-la. É urgente procurar outra e outra tampa que disfarce melhor.
Enquanto procuramos vamos distraindo a dor. Aí entra o cigarro. Na falta do que se orgulhar ou amar, buscamos artifícios de preenchimento. Antidepressivos, ansiolíticos, uns drinks... um cala boca qualquer nessa angústia. Eles não tampam o buraco, mas nos ajudam a ser mais complacentes, a vê-lo de forma mais branda ou não prestar tanta atenção. Fica mais fácil.
Mas e se ao invés disso formos na contramão? Encarar frente a frente essa falta, não temer? Deixar a angústia nos percorrer um pouco e fazer seu trabalho de lapidação? Esse buraco que permeia nossa alma não é um inimigo a ser extirpado. Se por um lado ele nos machuca, também é ele que nos leva pra frente. É ele que nos coloca em movimento. Enquanto vivemos em função dessa busca interminável, dessa caçada à tampa “perfeita”, vamos escrevendo a nossa história. E talvez seja possível usar tudo isso a nosso favor. Não apenas buscando tampas que nos dêem a impressão de ser completos, mas buscando caminhos que nos façam crescer e nos façam conhecer melhor nossos próprios desejos.