Talvez não seja fácil criar caminhos sobre o nada e inventar um trajeto que o faça atravessar os assombros de si mesmo. A certo ponto é possível que doa desfazer-se de tudo aquilo que era caro apenas para olhar-se de frente e desprovido de disfarces. Por fim será estranho ver abismar-se diante de si um desconhecido, cheio de avessos desejos e belezas incógnitas. Mas é exatamente nesse encontro, nesse desembolar de novelos, que a vida vai se tornando mais leve.
terça-feira, 17 de julho de 2012
O melhor perfume
O perfume do hidratante lembrava-lhe, toda manhã, dos dias em que ela tinha amado. Abria a tampa do frasco e ensaiando um sorriso espalhava por todo o corpo a sensação de um arrepio, como se fizesse sentido alguma expectativa. Como se fosse possível, outra vez, um encontro marcado às avessas, em plena luz do dia. Sentia na maciez dos dedos a deslizar sobre a pele uma espécie de carinho, um aconchego solitário. E por breves instantes, era mesmo capaz de se sentir revivendo aqueles dias, todos os dias. Repetindo-se diariamente na aflição de um amor que lhe negava sempre o seu desfecho, mas que, como um vício, ela insistia em mantê-lo à flor da pele.
Seus dias se davam sempre nesse misto de excitação e melancolia. Numa dúvida sobre o que devia ou não ser esquecido. Por um lado buscava a saída daquele amor, a porta dos fundos por onde pudesse escapar da ofensa que era não ser amada. Por outro, relutava em mudar a fragrância, como se ao mudar, perdesse o gozo matinal do sofrimento. E como era doído, e como era bom lembrar. A dor daquele aroma tinha um sabor incomparável, era o gosto da sua alma gritando. Era como saber-se viva. E seguia deixando-se doer no melhor perfume para evitar o drama de não sentir nada, de esquecer. De apenas seguir adiante os dias, como todo mundo, camuflada pelas tarefas de viver. Perdida de si e distraída dos seus desejos.
Kattlyn Pereira
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Sobre cerejas e desejos

Quero uma cereja. E ir pra França, e ver o mar... Tem dias que eu quero tudo! Vontade de voar. De conhecer outros lugares, outros ventos. Sentir a vida bater no rosto como gotinhas de chuva. Tremer de frio, suar, cansar, correr. Perceber o movimento nas veias. E doer e ser bom, e pegar e largar. A dança da vida precisa seguir com desenvoltura os próximos passos. E é da minha natureza infantil improvisar as cenas do grande show, o espetáculo de se jogar no mundo sem redes de proteção. Gosto de brincar com fogo e às vezes até gosto de me queimar. Que seria de nós sem alguns arranhões, sem algumas tardes de melancolia, sem uns ataques histéricos? Não tenho talento para o equilíbrio chato de ser feliz o tempo todo. E gostar de tudo certinho, e tudo acabadinho, e tudo no lugar. Quero é uma cereja, bem doce. E ver o mar...
segunda-feira, 2 de abril de 2012

Sou feita de tempo e palavras. Páginas de livro, letras de música, frases sem sentido. Conta-se nos saltos dos meus ponteiros as minhas esperas. E nos meus silêncios, milhares de expectativas. Sou relativa, reativa, passional. E às vezes temo não passar de um texto sem nexo, um tempo que escorrega desatento, sem deixar marcas ao redor.
Sou tempo, sou palavras. Mas em essência sou indizível, atemp...oral. Livre de convenções e significados acabados. Posso flutuar pelos sentidos, pela falta de sentido, pelos sentimentos. Não posso ser apreendida, porque sou de substância etérea. Como é etéreo tudo que me cerca.
Gosto do movimento, dos tique-taques do relógio, de palavras que vão se misturando para dizer nas entrelinhas o que na verdade, é quase só uma suposição. E de tanto querer dizer e enxergar o impossível, espero do mundo mais do que o normal. Espero o extraordinário.
sexta-feira, 30 de março de 2012

Ouça um conselho. Tudo quanto lhe toca, lhe acrescenta. E de toque em toque cria-se um mundo. Sinta tudo que lhe passa diante dos olhos, deixe-se transpassar. Nada preserve porque a vida é como as águas do mar, misturando-se a outras e outras águas constantemente. O esforço por preservar-se é tamanho e resulta inútil. Não tenha medo de perder-se nesse emaranhado, você faz parte de tudo isso e esteja onde estiver estará pertinente. Toque. Acrescente-se aos outros, envolva-se. Muros só lhe servem para tapar a visão.
sábado, 28 de janeiro de 2012
O Objeto Perdido
O objeto do desejo é como um fantasma, semelhante aos pontos pretos da figura. Está sempre tão perto que temos a sensação de que um único movimento nos fará agarra-lo. Mas basta que a gente o toque com os olhos para que ele escape e esteja em outro lugar. E assim nunca o alcançamos. É um objeto perdido. Uma ilusão que nos mantém em movimento em busca do inatingível, uma cenoura presa à própria cabeça.
Auto Domínio

Hoje começo a me desfazer de você. De comprimido em comprimido a sua imagem há de ir se apagando, feito final de filme. Em poucos dias restará apenas a tela escura, indistinguível. E então poderei rir do meu desalinho. Desses dias em que a dor conseguiu por fim tocar-me, depois de anos mantida sob controle.
Bendizer, nunca é bom julgar-se sob controle. Tudo muda a todo instante, e por isso nada, nunca, pode ser assegurado. Eu mesma, por um tempo, acreditei ter o domínio de tudo o que se passava por mim. Talvez por isso tenha ido tão longe... sem imaginar que não seria tão fácil voltar. Não convém acreditar demais no nosso equilíbrio, há coisas na vida que são fortes demais. Vão além de qualquer controle. A paixão é uma delas.
Agora tento desenhar um atalho para que eu passe logo por esses dias. Que venham outros mais bonitos. A vida anda doendo demais, e eu não gosto que seja assim. Não me interessam piedades. Nunca fui dada ao uso da dor como forma de seduzir afetos. Sou dada a alegria fácil, daquelas que começam na altura da barriga feito festa de borboletas. É isso o que me move. A tristeza me coloca num estado de ‘dor-mência’, me paraliza.
Como diz Clarice Lispector, “É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.” Chego mesmo a pensar que melhor é viver de uma mentira tranqüila que de uma verdade indisciplinada. Por isso aceito entregar-me aos cuidados dos antidepressivos. Que eles possam calar a boca de algumas verdades angustiantes, que teimam em gritar fazendo estragos. A mentira é mais branda, domesticada pelo social. Ela é tudo o que esperam de mim, por isso não causa conflitos. Minha verdade é selvagem demais, não sabe ter modos. Preciso aceitar deixá-la de novo quieta, embora nunca deixe de achá-la bela em sua inconstância, sedutora na sua ousadia.
Há um tempo atrás fiz esse verso, que deveria ter virado uma música, mas não virou por falta de talento. Cabe bem aqui. ‘Melhor ser qualquer coisa que não preocupe os pais e nem doa demais. Qualquer caminho reto, sensato e discreto, aonde se pretenda um pouco de paz’.
Bendizer, nunca é bom julgar-se sob controle. Tudo muda a todo instante, e por isso nada, nunca, pode ser assegurado. Eu mesma, por um tempo, acreditei ter o domínio de tudo o que se passava por mim. Talvez por isso tenha ido tão longe... sem imaginar que não seria tão fácil voltar. Não convém acreditar demais no nosso equilíbrio, há coisas na vida que são fortes demais. Vão além de qualquer controle. A paixão é uma delas.
Agora tento desenhar um atalho para que eu passe logo por esses dias. Que venham outros mais bonitos. A vida anda doendo demais, e eu não gosto que seja assim. Não me interessam piedades. Nunca fui dada ao uso da dor como forma de seduzir afetos. Sou dada a alegria fácil, daquelas que começam na altura da barriga feito festa de borboletas. É isso o que me move. A tristeza me coloca num estado de ‘dor-mência’, me paraliza.
Como diz Clarice Lispector, “É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.” Chego mesmo a pensar que melhor é viver de uma mentira tranqüila que de uma verdade indisciplinada. Por isso aceito entregar-me aos cuidados dos antidepressivos. Que eles possam calar a boca de algumas verdades angustiantes, que teimam em gritar fazendo estragos. A mentira é mais branda, domesticada pelo social. Ela é tudo o que esperam de mim, por isso não causa conflitos. Minha verdade é selvagem demais, não sabe ter modos. Preciso aceitar deixá-la de novo quieta, embora nunca deixe de achá-la bela em sua inconstância, sedutora na sua ousadia.
Há um tempo atrás fiz esse verso, que deveria ter virado uma música, mas não virou por falta de talento. Cabe bem aqui. ‘Melhor ser qualquer coisa que não preocupe os pais e nem doa demais. Qualquer caminho reto, sensato e discreto, aonde se pretenda um pouco de paz’.
sábado, 7 de janeiro de 2012
Fantasia para os dias de festa!

Hoje eu queria uma festa. Gente falando, gente dançando, gente bebendo. Pessoas por todos os lados. Cada um com seu desejo, consciente ou não. Festas são encontros marcados com o que há de mais pulsante dentro da gente. Com aquilo que grita no fundo da alma querendo sair e a gente nem sabe dar nome. Uma esperança de sabe-se lá o quê. Quem vai a uma festa sempre espera. Nem tanto das festas de família, aquelas com convites, presentes e parentes. Festas de hora marcada. Mas muito das festas que a gente inventa. Aquelas noites em que a gente decide se encontrar com o que há de mais verdadeiro em nós. E para isso não tem hora.
É uma vontade de ir. De descobrir, de despertar sensações adormecidas. Uma crença de que o mundo é um lugar bem mais divertido, mais mágico, mais envolvente. Um baú de surpresas prontas a se esparramarem pelo chão, como caixa de brinquedos. O corpo imagina as possibilidades, a mente desenha as façanhas, e cedendo a esse entusiasmo súbito, vestimos a melhor roupa, e saímos. Vamos atrás da nossa festa.
Mas é preciso ter olhos para encontrar do lado de fora, a festa que começamos por dentro. É preciso não se deixar contaminar pela crueza do mundo real. Talvez seja essa a função da bebida nas prévias noturnas: manter uma atmosfera onírica. Fazer com que a realidade e as nossas pinturas internas se confundam e a gente não consiga distinguir onde começa uma e termina a outra. Algo como um sonho. Algo como dar vida e voz ao nosso mundo secreto, e deixá-lo misturar-se despudoradamente a tudo ao redor.
É preciso ter olhos de Cinderela: ver uma carruagem onde há apenas abóboras, cavalos no lugar de ratos, beleza e magia no lugar onde há gente comum e lugares triviais. Porque o encanto das coisas quase nunca parte delas mesmas, mas da forma como a olhamos. Para entender, basta lembrar-se das coisas e pessoas que você amou, e já não ama mais. Porque será que o encanto que havia ali acabou-se? Eles mudaram ou foi você que mudou o seu olhar?
Por isso, nesses dias de festa, o mais importante não é vestir a melhor roupa, mas sim a melhor fantasia. São elas, as fantasias, que transformam coisas comuns em coisas surpreendentes. São elas que nos fazem enxergar um algo a mais em nós e nos outros, é ela que faz com que a gente se apaixone. A fantasia é uma forma muito pessoal de espalhar encantos. É como uma bruxaria capaz de mudar a natureza das coisas.
Então eu sugiro: Nas noites em que você decidir que quer viver uma festa, que quer provar o gostinho do mundo e mergulhar na sua própria fantasia, pegue sua varinha de condão e trate de espalhar feitiços por aí. Acredite: você tornará sua vida mais encantada a partir de seu próprio encanto.
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